Elegia 1938

Carlos Drummond de Andrade (1902-87)

 

Elegy 1938

Carlos Drummond de Andrade (1902-87)

Translated by John Ryle and Fábio Araujo

 

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre os mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Joyless work in a decaying world.
No picture fits; no pattern holds.
You struggle on like others, feeling heat and cold,
Hunger, lack of cash, the ache of sex.

You drag yourself to parks where heroes preach
Abstinence, virtue, courage, parenthood.
They hoist their bronze umbrellas when the night-mist comes,
Or hide themselves in haunted libraries.

You love the night, the way it wipes things clean.
While sleep lasts, problems keep you free from death.
But in the harsh dawn there’s the Great Machine
And you, a cipher, and the indecipherable palms.

You walk with the dead and talk to them
Discussing mental life and future time.
Writing spoils your sweetest hours of love.
Your seed time’s wasted on the telephone.

Proud heart, you hurry to admit defeat,
Postpone the common happiness a hundred years
Accept storms, wars, job losses, unjust spread of wealth
Because you can’t blow up Manhattan on your own.