Elegia 1938
Carlos Drummond de Andrade (1902-87)
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre os mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
also a journalist and author of crônicas, the short-form semi-fictional essays that figure large in literary culture in Brazil and elsewhere in Latin America. One of the first translators of Drummond’s work into English was the American poet Elizabeth Bishop. Although Bishop lived in Brazil she and Drummond were not acquainted. “I didn’t know him at all,” she said in a 1977 interview with George Starbuck. ”He’s supposed to be very shy. I’m supposed to be very shy. We’ve met once—on the sidewalk at night. We had just come out of the same restaurant, and he kissed my hand politely when we were introduced.”